Minha Crystal (e sobre o quê não entendo)

Lembro quando você chegou. Pequenina, indefesa, inocente, cor de caramelo, correndo e atropelando-se com as próprias patinhas que não venciam o percurso. Você passava travessa por debaixo do portão. Eu tinha onze anos e um sonho realizado, ter um cachorro.

Você me lambia e afagava quando aos 14 eu chorava de castigo, sozinha, no quarto rosa. Você, sem falar nada, porque não o podia, me acalmava. E por pior que fosse meu dia, sempre me alegrava ver você sorrir com os seus pequeninos olhinhos de bolita amendoados.

Aos 16 era a única que agüentava minhas roupas pretas, minha depressão, minha abstinência de carne, quilos a mais e rock pesado.

E aos 21 você se foi. Na mais triste quarta-feira de toda a minha vida. Meus olhos enchem de água só por escrever isso. Lembro com dor dos mínimos detalhes desse dia. Da faculdade passei em casa só para apanhar minhas roupas e ir dormir fora (coincidências não existem). Quando meu irmão veio com lagrima nos olhos minha mãe chorava, “ela ta nas últimas, Tá, não tem força nem para respirar”. Eu me atirei no chão feito a criança de doze anos ao seu lado e berrei para você não ir embora, e você, mesmo sofrendo me acalmou mais uma vez. Eu rezava por um milagre, com todo ódio que alguém pode sentir, mesmo que ao olhar nos seus olhos visse que você estava pronta para partir, simplesmente por não agüentar mais sofrer. Mais eu ti amava um amor que acho que só sentirei novamente por um filho. Um amor sem cobranças, incondicional, puro; um amor que sempre sentirei ao lembrar das suas orelhinhas abaixadas e sua cara eterna de bebê.

Eu simplesmente não podia aceitar assim, sem fazer nada. Levei você no veterinário e pouco depois da meia-noite, quando não agüentava mais resistir, você partiu. E tento dia após dia apagar essa cena da minha memória. Hoje eu chorei, caminhando com a Cacau e lembrando de você. Pequenina imponente. Luz da minha adolescência sombria.

O vazio que sinto jamais vai ser preenchido, ele vai ser pra sempre seu. E ao passar por aquela rua vou lembrar-me da noite mais escura que já houve.

Se existe um céu para os cães, e há de existir, peço a Deus que permita que pra lá eu vá quando partir.

Saudades eternas.

Sei que não é o tipo de coisa que vocês costumam ler aqui, mas esse é um blog pessoal. E pessoal não é só o que visto, compro, como, faço, mas o que sinto e o que de fato é realmente relevante nessa minha vida. E eu simplesmente não consigo entender, é algo que foge da minha realidade, ver pessoas abandonando, maltratando e fazendo sofrer esses seres que foram colocados no mundo para trazer alegria. Cães ou qualquer outro animal, não são brinquedos, se você não tem condições psicológicas/financeiras de ter um animalzinho, por favor, NÃO o tenha!

Obrigada.

4 pensamentos sobre “Minha Crystal (e sobre o quê não entendo)

  1. Taay que linda, eu lembro da Cristal e agora tendo a minha Sofia aqui do lado me dá um aperto em pensar no dia que isso vai acontecer, pois sempre chega o dia!!! Mas com certeza ela vai continuar te ‘acalmando’ lá de cima.. beijão Priii!

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